Cap 1: Um Achado

A pequena Barro vasculhava cada toca, tronco caído ou arbusto, escarafunchando por aí, com pequeninos pedaços de galinhos e sujeira aglutinando-se em seu pelo. Passava de um lugar a outro, freneticamente, com um sentido de urgência. Mas na verdade, não sabia bem o que buscava. A cada mudança no vento, na sua direção ou intensidade, ela parava. Erguia o pescoço e se concentrava. Era quando milhares de linhas coloridas transpassavam por seu nariz.

Identificava a linha azul do que chamavam de Tatu, a turquesa do que chamavam de Calango, até mesmo o cheiro bordô de Lenha. Feliz, não sentia nenhuma daquelas linhas complexas do que era um Inimigo. Era o cheiro mais difícil, e sempre que o confundia, era reprimida.

Havia percebido, com o tempo, que todos os humanos de sua vila – os Amigos – tinham um leve cheiro agridoce, o mesmo das fumaças de suas fogueiras, compartilhadas pelos homens e mulheres da vila, entorpecidos por álcool, histórias e apostas. Quanto mais forte era a fumaça, maior eram suas risadas, bem como as sobras de comida que ela silenciosamente surrupiava. Geralmente, os humanos de outros locais – quase sempre inimigos – possuíam outros cheiros diferentes quando surgiam: cheiros do medo, da fome e da raiva.

Mas nenhuma daquelas linhas pareciam ser o interesse de seu humano, Vance. Na verdade, ele não havia dito ou revelado nada para que a Barro procurasse. Ele estava ali, apenas vagando apressado pela frente, olhando por cima dos ombros, como se quisesse ver à distância,  através das árvores de grossos e retorcidos troncos, negros e caóticos.

Poderia parecer que a ausência de pausas por Vance indicasse que ele sabia para onde estava indo, tão agitado e certo de si.  Mas a pequena Barro começou a perceber uma repetição das paisagens, começou a cheirar a si mesma ali, e ali, e ali. Estavam andando em círculos.

Sabia que seu humano não gostaria, mas ela teria que ir mais longe, abrir o raio de distância entre eles. Sempre que se afastava muito, ouvia um chamado ou uma bronca. Deveria arriscar. Estava ficando com sede, cansada e não havia qualquer indicação que Vance desistiria logo.

Decidiu, por puro instinto, dobrar para Leste – não que soubesse o que era Leste. Era simplesmente a direção de sota-vento, de onde as linhas dos cheiros vinham mais fracas e finas, por estarem contra o vento.

Como esperado, nem se afastou tanto e ouviu um longo assobio. Se endureceu, levantou as orelhas. Não era um assobio de urgência, de perigo, mas um simples chamado. Podia ignorar.

Ele que viesse atrás dela, afinal.

O caminho escolhido pintava-se por uma vegetação cada vez mais densa e sombras mais ameaçadoras, com as árvores crescendo em tamanho, largura e quantidade de espinhos. Vários cipós duros se envolviam, obstruindo o caminho na altura de Vance. Barro não se preocupava com isso, suas patas bastante curtas e o corpo alongado – quase desproporcional – a faziam especialmente boa em entrar em pequenos buracos. Sentia, aliás, habitualmente uma vontade inexplicável de entrar em tais buracos.

A cadelinha sentia o humor do humano passando do otimismo para a braveza. Ouvia sua voz esbravejar palavras ríspidas, curtas e altas, sempre após ele bater o joelho ou testa em algum galho sarcástico. Regraciou por estar longe dele nessa hora.

Veja bem, a situação não era culpa de Barro. O cheiro de coisas orgânicas, como animais, pessoas e flores eram lindas linhas coloridas, vivas e brilhantes. Eram muito fáceis de serem distinguidas. No entanto, demorou para ela perceber uma finíssima linha, quase transparente, de uma sutil cor âmbar apagada. Sabia que este tipo de cheiro era de minérios e rochas… Mas nunca havia cheirado, visto ou lambido aquele material em específico.

Ficou curiosa. Será que era isso que procuravam? Bem, já estavam ali mesmo. Seria rápido, de qualquer modo. Disse então em voz alta “Me Siga! ”, o que Vance ouviu como dois latidos secos.

Conforme cada vez mais nítida e palatável ficava a linha, outros cheiros sobrevinham: o cheiro de mato consumido em cinzas, o cheiro de árvores carbonizadas, o cheiro de terra e pedra queimada….

Eram odores comuns, quando a floresta se incendiava. Geralmente Barro e os outros cães eram os primeiros a perceber, latindo alarmes em coro. Mas até os limitados humanos conseguiam ver de longe o brilho vermelho e fumo ascendente, mesmo quando era dia. Corriam para proteger os arredores de suas vilas, tocando sinos, roçando o mato, afastando galhos, em um trabalho metros e metros ao redor da vila. Coordenados e temerosos, jogando areia sobre o avanço do fogo, tirando as crianças de dentro das casas. Isso acontecia duas ou três vezes por ano, pelo menos. Algumas vezes, a própria vila era atingida.

Mas após um incêndio, a floresta cheirava assim por quilômetros. Nunca sentira isso de uma forma tão… isolada. O que seria essa linha âmbar?

Quando Barro passou por de baixo de um tronco caído, esgueirando-se por meio da casca seca e cortante, abruptamente saiu da sombra da mata e sentiu a força do Sol em sua cabeça. Se deparou com uma clareira. Não sabia explicar o que via, mas havia um buraco circular, com um raio de pelo menos duzentos metros. Ao redor, árvores e caídas, chamuscadas. Existia também uma linha reta de árvores caídas, as mais distantes apenas dobradas, e as mais próximas totalmente destruídas.

No centro da cratera, havia um cubo de metal, de uma cor que Barro nunca antes tinha visto. Brilhava como aquilo que os humanos conheciam como amarelo, mas parecia mais vivo, mais intenso, como a cor do próprio Sol na alvorada, pintado em uma superfície lisa. Possuía também padrão geométrico muito sutil, de pequenas linhas desenhando uma colmeia, hexágonos germinados entre si, um a um.

O Cubo era enorme, e apesar da devastação ao seu redor, parecia intacto. Sem nenhum risco, fuligem ou amassado aparente. Havia apenas sua inércia resplandecente.

Vance chegou um tempo depois, ainda reclamando do caminho fechado e afastando galhos com o facão. Abruptamente, quando se deparou com a clareira formada pela cratera, ficou duro.  Barro sentiu os hormônios dele passarem da dúvida à felicidade, como nunca antes havia sentido – não sem o cheiro de fumaça, ou álcool ou sexo de companhia.

Vance botou a mão na cabeça de Barro, e repetiu lentamente o quanto ela era uma boa garota, boa garota.

A resposta da cadela foi abanar o rabo. Enfim, sabia agora o que ele procurava. Mas, caso fosse procurar isso de novo, deveria saber o que era. “Qual é nome dessa coisa?”, resolveu perguntar, o que Vance ouviu como três latidos longos.

Viviam a muito tempo juntos, e mutuamente eles se entendiam por cada detalhe em seus gestos ou olhares. Contudo, Barro não recebeu uma resposta, e não precisava. Percebeu que Vance não sabia como responder.

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