Avulso: Fronteiras

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Não mais reconheço essa cidade, onde tanto vivi. As ruas, avenidas e superquadras são as mesmas. A cor e contorno do lago não mudaram. Mas vejo uma tempestade vindo. E na ventania que a precede, levantam-se cinzas e fragmentos de papel picado, com miúdas letras apagadas; amontoando-se no meio-fio das calçadas.

Quando embarquei no avião transoceânico, não pensava em contrabando. Migrei como um turista, a se encantar pelo mundo exterior. Já nos aeroportos de outros países, vi bancas com revistas e livros de bolso à venda, pessoas segurando papéis e debatendo sobre eles. Havia um verbo para isso que eles faziam com estes escritos. Verbo não mais utilizado nesta minha cidade.

Quando desembarquei em meu retorno, o agente aeroportuário calmamente abriu minhas malas e enfiou as mãos enluvadas em meus bolsos. Pediu-me para eu tirar os sapatos, os óculos, o cinto. Atrás da fivela descobriu que desenhei o Verbo esquecido. Repreendeu-me: imaginou que não acharíamos?

Quando eu cheguei à cidade na primeira vez, deveria ter uns 20 e poucos anos. Dirigi a esmo por entre as ruas largas e arborizadas e perdi-me nas “tesourinhas’, imaginando que vida eu teria desde então. Era recém-formado, e o emprego novo prometia grandes conquistas e responsabilidades. De certo, facilmente me acostumei com o ar mais puro daquele local, o Sol vivo e presente. Na grande metrópole em que nasci, entre o caos e desolação, sentia apenas o cheiro de monóxido de carbono, dióxido de nitrogênio e ureia. Meus olhos ofuscados pela perpétua névoa viam apenas o monocromático e sombras.

Nos outros países, o céu é mais azul. As árvores são mais verdes. A água é mais refrescante. Nas praças observei crianças e cachorros correndo sem direção, alegres e comendo doces. Os casais se sentam em bancos e se abraçam. Havia uma palavra para todas essas coisas não feitas pelo homem, que brotam do solo, do ar,do mar. Que palavra era essa, que não existe mais deste lado da fronteira?

Não mais reconheço essa cidade, onde tanto vivi. Os parques têm o mesmo nome, os canteiros nas calçadas o mesmo formato quadrado. Mas não há nada sobre eles. Apenas concreto. Vejo uma tempestade vindo. E na ventania que a precede, levantam-se cinzas e fragmentos de flores e caules, com miúdas poeiras de terra vermelha; amontoando-se no meio-fio das calçadas.

O meu desembarque foi bastante fácil, o agente aeroportuário carimbou meu passaporte e solicitou que eu abrisse minha mochila. Verificou todas as pastas. Pediu-me para eu abrir a boca e olhou por de baixo de minha língua e por de trás de meus dentes. Em minha garganta, viu amarrada a palavra esquecida. Aborreceu-se: supôs que não acharíamos?

Não sei ainda se o amadurecimento vem em fases, por meio de tombos, beliscões e arrependimentos; ou se ocorre em uma única e derradeira vez: abruptamente deixamos de ser criança. Lembro dos enterros de meus avós, um-a-um. Recordo a comoção e o cortejo popular, televisionado com cuidado, para quando personalidades notáveis faleciam. Havia também nomes de lugares – escolas, bibliotecas, pontes – batizadas em homenagem a antigos homens e mulheres, não mais presentes no mundo material.
Nos outros países, havia o rosto de pessoas estampados nas moedas. Existiam estátuas de ferro, de mármore e granito em grandes cruzamentos viários. Visitei também lugares pitorescos, de grama aparada e flores dispostas cuidadosamente ao lado de lápides ornamentadas. Frente a elas, parentes sentavam-se silenciosamente. Em outros países, pessoas se reuniam circundando caixões, ou se pintavam de caveiras e festejavam pelas ruas. O que elas faziam, afinal? Existiam vocábulos para essa relação entre vivos e mortos, entre presente e passado. Eu já soube.

Não mais reconheço essa cidade, onde tanto vivi. Penso que atravessei uma fronteira além dos limites meramente cartográficos. Aquelas são as subidas que sempre existiram, as Serras que abraçam o urbano são de mesma silhueta. Mas na ventania que precede a tempestade vindoura, levantam-se cinzas e mais cinzas, sopradas das chaminés de dezenas de crematórios, amontoando-se no meio-fio das calçadas.

Quando novamente desembarquei, o agente aeroportuário foi respeitoso. Saudou-me como cidadão de seu país e revistou-me silenciosamente. Olhou minha bagagem, minhas roupas. Passei por cães farejadores. Quando retiraram meu sangue, viram em lâminas de vidro minhas hemácias e glóbulos formando os vocábulos perdidos. Reprovou-me: pensou que não acharíamos?

(Homenagem à Rogers, Atwood e Brasília)

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