Avulso: As uvas que ficaram para trás

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Bunny  Deviantart

Metade das pessoas olhavam-me com ódio, a outra metade com curiosidade. Mas ninguém conseguia ignorar minha presença, com aquele meu colete verde-limão, representando a mais controversa política de migração que já existiu na história da civilização.

Não me importava com o julgamento de outras pessoas, estava preocupado apenas com um único interlocutor: o meu avô. Antes de partir, me indaguei se deveria ir à paisana ou com o uniforme. A minha esposa tentou-me convencer a ser discreto. Talvez por pura teimosia, arrisquei.

A resposta sobre minha decisão veio quando encontrei meu avô no espaçoporto central. Ele me olhou dos pés à cabeça, demorando-se em minha roupa, e sorriu irônico, calado. Não perguntou como eu estava, se a nave chacoalhou ao entrar na atmosfera. Não perguntou se a diferença de pressão me enjoou, não perguntou se minha esposa ou seus netos – moradores de outro mundo – estavam bem. Tratou-me como um estranho.

Embarcamos no metrô e seguimos até uma estação longínqua. Angustiado, tateei algum assunto, qualquer um, que não gerasse conflito entre nós.

— Vazia a estação, não?

— Sim, claro, vocês mandaram quase todo mundo embora. — Disse ele, secamente.

Era isso, não haveria diálogo fácil. Achei melhor não responder. Foi em silêncio que aluguei um carro manual, no totem da estação. Ninguém mais dirigia, nem mesmo aqui na Terra. Foi meu vô que me ensinou a dirigir, e senti saudade do vento arenoso entrando pela janela, a música sertaneja de fundo, a sensação de controle no vai-e-vém do carro ao passar pela serra.

— Você nunca soube dirigir bem, né? Até parece que regrediu. Lá não tem carro para você treinar, hein? — disse meu vô, disfarçando um sorriso.

Sorri também.

— Não, lá o transporte é todo coletivo. Não existe espaço para se desperdiçar com avenidas e estradas…

Sua tristeza voltou de forma abrupta. Esperei quase três horas para ouvir novamente sua voz.

— Encosta, já estamos entrando na fazenda. Vou abrir a porteira.

Freei o carro e pude desviar o olhar para a paisagem. Havia milhares de videiras ao nosso redor, preenchendo o vale. Meu avô voltou ao carro, trazendo consigo alguns cachos de uvas. Elas refletiam a luz fraca do sol, lisas e macias. Pareciam doces. 

Senti-me uma criança, pequena e inexpressiva próximo àquele mar verde, tocado pelo cheiro único e especial, admirado com aquela imensidão presenteada pelo universo. Não havia nada assim fora da Terra.

Lembrei-me os sucos e vinhos que vô e vó faziam, os vários doces de uvas. Comíamos até enjoar. Furtávamos taças, até cambalearmos.

Estávamos bebendo um vinho caseiro, na varanda de sua casa. Em meio ao céu estrelado, uma esfera brilhante, em azul, se destacava para mim. Daquela distância, ela possuía o tamanho de um punho. Não era a maior nem mais brilhante do que as várias outras esferas de mesmo tipo. Mas eu reconheceria especificamente aquela, de qualquer lugar que eu estivesse.

— Olha vô, aquele ponto azul, consegue ver? — Apontei.  — É lá que moramos. Essa hora, meus filhos devem estar voltando da escola.

Ele apenas assentiu com a cabeça. Aquele homem quase nunca saia daquele chão, muito menos do país ou para as Cidades-Externas. Seu abrupto silêncio retornou. 

Sua única experiência de vida era sobre aquele solo frágil, ao som daquelas cigarras, que agora penetravam em minha mente, badalando meu crescente sono.

Depois que duas garrafas acabaram, ele voltou finalmente a falar.

— Você gosta de lá?

Eu já estava sonolento, um pouso sonso. Demorei a lembrar sobre o que ele se referia.

— Sim, gosto muito, desde que fui lá para estudar, nunca mais quis sair. Você também gostaria de lá. Mas talvez você queira ir para algum lugar mais rural…

— Essas uvas aqui, eu as podo no final de setembro, na lua-cheia. Vocês, estudados, podem achar que não faz sentido, mas isso muda tudo. Fora daqui, não haverá invernos, não haverá fases de luas.

Não duvidada que isso antigamente fosse importante, mas pensar em estações na Terra atual era absurdo.  Porém, eu não queria discursar Engenheira Meteorológica, nem exibir os avanços científicos e panfletários sobre o assunto. Sabia que não poderia discutir. Devia a ele mais do que isso.

A verdade era que o clima da Terra havia se perdido e os mecanismos de equilíbrio ecológico naturais se exaurido. A manutenção da Terra se dava por maquinários complexos e frágeis, e muito, muito dinheiro.

— Você tem razão vô. — Precisei ser cuidadoso — Mas a manutenção ecológica da Terra está inviável. É muito mais fácil manter o ar puro e água potável em cidades menores e feitas especificamente para isso, do que adaptar um planeta tão grande. A maioria da minha geração nunca sequer pisou na Terra. Os atuais governantes apenas veem a Terra como um gasto de dinheiro, um museu muito caro de se manter, que poderá se incendiar a qualquer momento.

— Você está me dizendo que um trator vai vir, arrancar a terra? Destruir meu vinhal, aliás, vinhal da nossa família por séculos, e levar o que sobrou para uma cidade espacial? Só porque alguns empresários ricos e o governo acham que aqui não dá mais… lucro?

— Sim, vô. É exatamente isso. — Respondi, melancólico. Entendia sua raiva por eu participar disso, por minha conformidade. Mas a destruição de nosso planeta era muito anterior a mim. Sentia-me responsável em apenas fazer o melhor que pudesse para quem ficou e para meus filhos lá no alto. Continuei.

— Seria melhor que você fosse embora, pelo Programa de Migração. Não digo isso só porque trabalho nele.  Sabe, antes que desliguem todos os controles deste lugar. Eles dizem que vão esperar uma geração ainda, mas quem garante? A qualquer momento podem resolver parar as máquinas… sem chuvas, sem água, como você vai sobreviver? Eu verei com o pessoal da Agência de Reestruturação se podem separar esse solo, da sua chácara, especificamente para você. Cuidarei pessoalmente do transbordo. Você pode ensinar seus netos a plantar, que tal? Será o mesmo solo…, mas apenas em um lugar novo. 

Ele sabia que não teria escolha. Sabia que era melhor ir comigo e meu colete verde-limão, com o enorme logo do Programa de Migração. Seria pior se viesse alguém fardado, segurando uma arma em uma mão e uma ordem de despejo em outra.

Duas semanas depois partimos. Consegui, com muito esforço, subjugar a burocracia e reservar uma parte do solo o qual ele já foi dono. Fiz questão de acompanhar enquanto retiravam cada contêiner de terra, e estive presente quando os embarcaram nas enormes docas espaciais.

Toda a mudança, dele e de vários outros resistentes, me deixou ocupado. Demorei quase dois anos para poder visitá-lo com minha família em seu novo lar. Um pequeno lote de cerca de seiscentos metros quadrados em um satélite artificial especificamente agrícola, onde se concentravam os plantios extensivos e intensivos da atual humanidade. 

No fundo do pequeno terreno, notei várias videiras, ocupando um terço da área total.

Meus filhos riam e se deliciavam com os doces, faziam careta ao beber o forte suco concentrado de uva. Era junho e minha filha conseguiu surrupiar um copo de quentão, fingi que não vi.

Eles estavam maravilhados, mas eu não os conseguia acompanhar. Sentia um gosto diferente ao que eles sentiam. Sabia que as uvas nunca mais seriam tão suaves e macias quanto eu lembrava. Tudo parecia uma imitação do que poderia ter sido. O quanto isso era minha culpa?

Senti-me limitado e inexpressivo no meio daquele esboço de paisagem, sendo tocado pela frieza do destino, assustado com aquela pequeneza que o homem criou. 

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