Avulso: Só mais um deserto para se cruzar

Frontier – Alex Wild

Dihya encarava a lua cheia. Será que ao olhar fixamente, a Lua não se mexerá? Ficará ali, estática, e a noite nunca terminará? Mais importante, o amanhã não chegará? Igual a quando ela olhava o bolo assando. “Se olhar, ele para de assar”, sua mãe dizia e ela acreditava. Mas não é assim que acontece. “Pensamentos bobos, você não é mais criança, é uma embaixadora e tem uma missão”, murmurou para si mesma.

O frio começava a incomodar conforme a noite avançava — e a Lua, obviamente alheia a tudo, caminhava pelo céu. Não era esperado frio para aquela noite de verão. Sua roupa, composta apenas de uma calça, um fino moletom e um hijab, logo seriam insuficientes. De qualquer forma, era inútil se preparar para o clima. Poderia nevar, poderia fazer um calor infernal, o mar poderia subir e engolir a cidade, ou secar para sempre. Tudo estava imprevisível, tudo era possível.

Sentada ali, conseguia ter uma visão ampla das ancestrais ruínas, hoje um sítio arqueológico cravado na cidade. Mais além, conseguia até mesmo ver o Mediterrâneo.  Não podia deixar de perceber a beleza do cenário, com vento o gelado assoprando sua face, as construções de pedra corroídas pelo tempo, o som das ondas badalando sua mente, e lá no alto, quase ofuscados pela Lua Cheia, diversos pontos coloridos. As Cidades-Satélites, sendo construídas por milhares de frenéticos e incansáveis trabalhadores, invisíveis daquela distância. Um cenário perfeito entre presente e futuro.

Ah! As Cidades-Satélites, a aposta da humanidade. Dihya sabia que era uma solução ineficiente, muito ineficiente. Precisavam fazer mais. Ela faria mais.

— Dihya, achei você!

A mulher não precisou se virar para reconhecer a voz. Era Aníbal, seu irmão menor. Tão crescido, barba grande, ombros largos. Como ele mudou tão rápido?

— Eu não sabia que eu estava me escondendo, irmão. Que a paz esteja sobre você! — Ela sorriu assim que ele se sentou ao seu lado. Por mais que estivesse preocupada, aflita, o seu irmão sempre a fazia sorrir. Fazia todos sorrirem.

— E sobre você a paz. Não estava se escondendo? Você sempre vem para essas ruínas, quando está chateada ou ansiosa.

— Para namorar também, mas isso eu não contava para vocês.

— Só se for para namorar pedras. O que está pensando, irmã?

— Como sempre, um monte de “e se”. E se nossa cidade não tivesse sido destruída milhares de anos atrás pelos Romanos, mas ao contrário, Cartago vencesse? E se nosso ancestral reino da Numídia tivesse resistido a toda forma de intrusão? E se fossem os imperadores do Egito quem tivessem marchado sobre a Europa, roubando deles seus monumentos? E se não fossemos palco de disputas da Europa e Otomanos? E se os povos de nosso continente encontrassem as Américas sozinhos, antes de serem escravizados, chegando lá como livres?

— Passado, irmã. Cartago não venceu, mas aqui estamos. Seja como for, toda a humanidade está condenada por igual, e é por isso que você só precisa se preocupar com amanhã. O seu grande dia, ein?

— É sobre amanhã também, irmão. Não sei se eu sou a pessoa certa. Você sempre é quem olha para o futuro. Você e sua esquisitice de montar miniaturas perfeitas das Naves Exploradoras. Lembro quando criou uma espécie de drone espião, e o escondeu no colégio. Mãe ficou furiosa pensando que você seria expulso! Mas sortudo que é, foi visto como um gênio.  Agora, olha só, Engenheiro-Chefe da Liga Espacial Afro-Árabe. Eu sempre olhei para ruínas… Nem sequer vi você virar um homem.

— Não se preocupe, Dihya. Você se afastou porque precisou, e amanhã fará o que precisa ser feito. Lembre-se sobre o que o pai nos dizia. Nossos antepassados cruzavam o deserto sem certeza alguma. É só mais um deserto para se cruzar. Se algum futuro me preocupa é o jantar. Mãe fez cuscuz. Pronto, sabia que você iria se animar!

. . .

O zumbido dos propulsores sempre deixava Dihya com uma leve tontura. Conseguia admirar a nave, toda a engenharia, toda tecnologia por trás dela, mas decerto não com a mesma empolgação que o seu irmão mostrava nessas situações.

Ela precisou tomar duas pílulas de um remédio contra enjoo antes de embarcar. Centenas de voos, porém seu corpo nunca parecia se acostumar. Se era assim voando na atmosfera, imagina no espaço, sem referência alguma? Seria pior, ou melhor?

— Olá, boa tarde. — Dihya cumprimentou a piloto assim que embarcou, testando o microfone do capacete.

Colocá-lo sobre uma toca, vestida sobre o hijab, que por sua vez cobria seu longo cabelo, era um verdadeiro incomodo. Um quente e suado incomodo.  

Sem contar que essas naves da Força Espacial Unida eram sempre minúsculas e quentes. Parecia que o resfriamento pelo ar-condicionado não precisava ser potente, no gelado espaço. E se sentar em um cockpit, feito para um copiloto? Com certeza a cadeira não reclinava. A pasta que carregava — sua missão — precisaria ficar no colo. Por que não enviaram um jato comercial normal, se o seu voo era apenas uma simples viagem?

— Boa tarde, senhora embaixadora. — A piloto respondeu sem muita atenção.

Ela estava ocupada, verificando o mapa de voo e os controles. Minuciosamente. Dihya sempre se admirava como os pilotos eram burocráticos em suas tarefas, passando agilmente os dedos nos controles em touchscreen, conferindo cada elemento da nave, cada luzinha piscante, repetindo “checado”, “checado”, “checado”.

— Controle de voo, aqui é a capitã Dandara, código 342, Nave Padrão F.E.U. Saída em Túnis, destino para Joanesburgo. Tempo de voo estimado em 6 horas e vinte minutos, chegada em 20 PM local. Autonomia de voo de 31 horas em cruzeiro. Condições de tempo imprevisíveis. Armas operantes. Missão: transporte da Embaixadora da Liga Espacial Afro-Árabe.

Armas operantes? Em uma missão de transporte?  Pelo horário de voo, Dihya atrasaria a hora do maghrib, a oração do pôr-do-sol. Algum sentimento dizia que ela teria muito o que agradecer nesta oração. Teria dedicação dobrada se não vomitasse.

 A embaixadora não ouviu a resposta do Controle de Voo para a piloto, provavelmente estavam em um canal separado. Tudo bem, o aumento no barulho, o brilho azulado nos propulsores, a trepidação da nave, o sinal da cruz que a piloto fez, indicavam que estavam prontas para decolagem. Estava receosa quanto as particularidades deste voo, mas não gostaria de demonstrar isso. Como embaixadora, era sempre observada, então esperaria pacientemente. A verdade sempre surgia. Sua missão começava. Não poderia retornar agora, de qualquer modo.

Pouco tempo depois da decolagem, assim que a nave entrou em cruzeiro, o sono veio. Aeronaves sempre foram um ótimo sonífero para a embaixadora. O remédio para enjoo só reforçava o inevitável.  

Horas se passaram, até Dihya acordar, ainda em voo, provavelmente pela abrupta vontade de encontrar um banheiro. Todo aquele café pela manhã, enquanto revisava seu trabalho, cobrava o preço.

— Capitã Dandara. Com licença. Posso fazer um pedido? — Ela espaçou bem as palavras. Para Dihya era difícil falar durante o voo. Todas suas forças eram gastas lutando contra o enjoo.

— Sim, senhora Embaixadora. Bem-vinda de volta. Por favor, sinta-se à vontade. — A piloto respondeu pelo microfone no capacete.

— Sei que temos um cronograma e mapa de voo, mas poderia voar mais baixo e um pouco mais lento, só por um momento? Eu gostaria de olhar para a paisagem. — Seria uma boa distração, pensou.

Dihya, como embaixadora, estava acostumada a visitar todos os países e continentes, e observar como as paisagens estavam mudando rápido. Era como uma bola-de-neve. As mudanças começaram lentamente, séculos atrás desde a primeira chaminé industrial, desde a primeira floresta derrubada, e então aceleraram, aceleram, até se tornar uma avalanche.

— Sim senhora Embaixadora, mas saiba que em uma altitude menor, a nave ficará mais quente e balançará mais.

— Tudo bem. Será só por um pouco.

— Confirmado. Descendo para 2900 pés acima do nível do solo.

Deserto. Deserto onde deveria existir uma floresta. Apenas cinco anos atrás, tinha certeza de ainda existir uma floresta ali. Estavam passando pela região equatorial. Não sabia nem mesmo o nome para aquela mancha de solo estéril que encarava. Parecia que todos os desertos do continente finalmente se juntaram. Talvez todos do mundo. A areia, a argila e o pó flutuavam por correntes atmosféricas por todo o globo, e assim seria até depois do planeta inteiro virar ou areia ou gelo.   

Sua missão era mais urgente do que parecia. Sentiu o peso da pasta sobre o seu colo. Olhou para a piloto, pelo reflexo do para-brisa. Ela deveria ter quantos anos? Cerca de vinte cinco? Difícil dizer por trás do uniforme.

A piloto percebeu que estava sendo observada.

— Senhora, se me permite dizer, eu escolhi transportar a senhora. Quando soube da oportunidade, me voluntariei. Eles queriam mandar um piloto novato, recém formado. Mas insisti em participar.

— É mesmo? — A embaixadora sempre achava graça quando alguém insinuava que ela famosa. Não se acostumava em ser uma figura pública.

— Sim, eu e minha família ouvimos vários dos seus discursos. O que a senhora fez, essa ponte política entre a liga Árabe, a Liga Norte Africana e a Liga Subsaariana, foi incrível. Criar uma única liga, pacificada. Incrível mesmo. Inspirou-me a entrar à F.A.U, olhar para as estrelas.

“Olhar para as estrelas”. Ela com certeza se daria bem com Aníbal.

— Capitã, se permite minha intromissão. De onde você é? Não reconheci seu sotaque. — Elas estavam conversando em francês, um idioma herdado por alguns desde o pretérito tempo de colonização, e um dos idiomas da F.A.U.

— Eu nasci em Angola. Quando criança mudamos ao Brasil, mas agora vivo onde a F.A.U me alocar. Já devo ter passado por uns cinco países.

Angola e Brasil, ambos afetados pelo Grande Incêndio, que assolou uma década atrás quase todas as regiões tropicais do planeta. Foi um dos impulsos, dentre vários outros, para o apressado Projeto Cidades-Satélites.  

— Capitã, você que está vendo de perto as Cidades-Satélites sendo construídas, o que acha da ideia? —  Mas não era essa a pergunta que ela queria fazer. Ela queria perguntar, na verdade: “haverá espaço para todos”? “Quem será escolhido para migrar até lá”? “Como será viver confinado, vendo de cima o mundo morrer” ?

Antes que Dandara pudesse responder, um alarme tocou. A luz da nave mudou para um sombrio vermelho.

— Piratas. — Dandara informou. — Três deles, nos perseguindo. Vou tentar nos comunicar com eles. Um momento.

A embaixadora virou o rosto, o máximo que conseguiu, para trás. Como a nave começou a fazer uma curva, ela conseguiu ver de relance as outras aeronaves. Eram um pouco maiores, de um modelo que misturava várias partes de outras aeronaves, inclusive, pedaços de naves da F.A.U, abatidas ou roubadas.

— Controle de Voo. Aqui é a capitã Dandara, código 342. Estamos sendo perseguidos por três naves não identificadas. Contato visual confirmado, mas sem resposta por contato verbal. Enviando localização e radar de situação. Aguardo instruções.

Logo na sequência, Dihva ouviu uma sequência de vários tiros, observando pela pequena janela as luzes dos projéteis incandescentes fazerem uma curva enquanto a nave mantinha seu zigue-zague.

— Controle de Voo. Confirmado. Saraivada de aviso efetuada. Não desviaram. Continuo em manobras evasivas. Aguardo instruções.

A mesma burocracia ao ligar a nave. Pilotos treinados dependiam dela, para não entrarem em pânico e fazer alguma besteira. Dihya com certeza estava em pânico. Agradeceu que o seu cockpit estava inoperante, ou então poderia causar algum acidente, pois seu corpo não previu o que a piloto faria logo a seguir.

Dandara virou o manche totalmente à direita, ao mesmo tempo que inverteu os propulsores de direção em 180.º. Dihya, quase desmaiando, nem sabia que isso era possível, e parecia que os piratas também não. A manobra fez a nave dar um grande giro, invertendo-a em uma volta completa. Mais projéteis incandescentes, e um estrondo. Rápido assim, a piloto havia diminuído em dois o número de perseguidores.

Passou no meio deles, que haviam se afastado, cada um em uma direção. Se fossem treinados, provavelmente manteriam o curso e iniciaram um contra-ataque.

Dandara então começou a subir, empinando a nave, milésimos de segundos antes dos piratas optaram por fazer uma curva fechada, cada qual para um lado. Dandara fazia uma inversão vertical. Ela não só subia, mas realizava um arco invertido e curvado. A nave estava começando a ficar de ponta-cabeça.

Dihya odiava montanhas-russas, e em uma nave, em velocidade de combate, a sensação da força G era esmagadora. O seu sangue estava sendo jogado para o cérebro. Precisava de um saco, urgente.

Um dos piratas ainda terminava o seu giro. Como a manobra de Dandara foi muito mais compacta, ela conseguiu um ângulo de ataque assim que iniciou sua descida, ainda de ponta-cabeça. Era como se Dandara já soubesse a velocidade, a curva, a reação do outro piloto antes mesmo dela optar em fazer a manobrada da inversão vertical. Novos tiros, e menos um pirata.

— Há! Adoro essa manobra. Eu gosto de chamar de meia-lua, sabe, igual na capoeira? — A piloto exclamou, obviamente animada com a situação, alheia a força G.

Dihya não conseguia se empolgar. Sabia que sua vida dependia da troca pela vida deles, mas entendia o motivo deles, a pobreza extrema, o desespero. Desejou que o último pirata desistisse.

— Controle de Voo. Duas naves perseguidoras abatidas. Espera… A última está abrindo um canal, se rendendo. Sim, obrigada. Mesmo? Um novo recorde, duas naves em 45 segundos? Fico feliz, mas o recorde anterior era meu também. Aguardo instruções. Certo, confirmado, continuarei com a missão de transporte. Permitindo a última nave perseguidora recuar.

— Recuar? — Perguntou a Embaixadora, surpresa

— Não temos tempo para escoltar ele, além de que seria perigoso. Ele poderia chamar reforços, enquanto nós mesmos, bem… Não temos muito pessoal aqui embaixo. A política da F.A.U é fazer prisioneiros, mas se não for possível, deixamos o inimigo fugir. Melhor do que a outra opção.

Subitamente a luz vermelha na nave se apagou, e Dihya largou os braços da cadeira, que nem havia percebido estar apertando fortemente.

Ela sabia que a pirataria havia se intensificado. Grupos deles ficavam próximos às grandes cidades terrestres, que estavam sendo desmontadas para retirada de matéria-prima, desde que todas as jazidas naturais haviam se exauridos. Cidades principalmente europeias e asiáticas, construídas com minérios africanos roubados séculos atrás, sendo agora desmontadas e enviadas para o espaço, literalmente.

Mas não sabia que agora havia pirataria em locais desérticos, pois bem, não havia muito o que se roubar. Muito possivelmente uma medida desespera, para conseguirem qualquer coisa que pudessem pegar. Pensou que a F.A.U sabia sobre os piratas, e escondia a informação para o público. Estavam perdendo o controle.

Não conseguiu voltar a adormecer, mas pelo menos, não vomitou.

. . .

Havia centenas de manifestantes. A embaixadora foi escoltada do carro até a entrada da sede da Ligas Espaciais Unidas, passando em meio à vários cartazes, alguns favoráveis, a maioria contrários ao controverso Projeto Cidades-Satélites. Estava cansada, era noite e teve tempo apenas para uma oração e um banho rápido no hotel após pousarem.

Ficou feliz de ter sido acompanhada até mesmo pela capitã Dandara. Agora, sem o capacete, máscara e macacão, conseguia ver que a piloto, com enormes tranças coloridas, um largo sorriso, parecia mais jovem ainda.

Uma nova geração. Será que as próximas gerações estão fadadas a viver em cidades artificiais, sob uma constante ameaça de guerra entre nações esgotadas, em meio a piratas desesperados? Apertou sua pasta contra o peito. Há alternativas.

O prédio era moderno, um monumento aos novos tempos prometidos. Na grande sala de reunião, com as bancadas circulares, os locais para se sentar eram sorteados. A cúpula era de vidro, uma enorme tela que mostrava uma animação do céu noturno, destacando as Cidades-Satélites, como se observadas de vários locais da Terra.

Ao encontrar a sua cadeira, ficou feliz de saber que se sentaria do lado do embaixador da Liga Latina Americana, um brasileiro chamado Paulo. Melhor, uma brasileira. Dihya precisava se lembrar que a representante gostava de pronomes femininos. Do outro lado, estaria o embaixador de Israel. Não conseguia se lembrar do nome dele.

Não estava muito à vontade para conversar com os diversos outros representantes, que formavam panelinhas, de pé, rindo uns aos outros, tirando fotos, trocando cartões. Também não sentiu vontade de explorar, na sala do lado, o café e comidas variadas, onde provavelmente teria que se socializar com alguém. Havia momentos que isso era necessário — e ela era muito boa nisso. Mas hoje ela precisava se concentrar.

Era muito estranho perceber como aquelas pessoas se sentiam tão à vontade ali, enquanto lá fora a polícia empurrava com escudos centenas de manifestantes.  

Mais cinco minuto para o Congresso começar. “Concentração Dihya, concentração”. Será que deveria olhar novamente sua apresentação? Rever seu discurso? Melhor não. De qualquer forma, percebeu que Paulo vinha vindo.

— Bom dia senhora Dihya!

— Bom dia Paulo, você… Você mudou! Está linda.

— Sim, agora você e nem mais ninguém vai errar os pronomes. Aliás, impressão minha ou o seu espanhol melhorou?

— Sim, andei estudando. Estamos buscando uma aproximação com a Liga da América Latina.

— Sua cara! Então, me diga algo. O que achou da viagem?

Pergunta estranha, pensou Dihya.

— Uma aventura, pode-se assim dizer.

— Fiquei sabendo, por algumas fontes, que a sua Liga está planejando algo novo. — Paulo disse com um ar misterioso. — Sabe, com meu sorriso e bons drinks brasileiros, outros embaixadores costumam falar mais do que desejam. Descobri por eles que vocês da Liga Afro-Árabe estão escondendo algo novo, e isso incomodou muita gente.

— Bom, era um projeto secreto por ser algo inicial. Internamente na própria liga poucas pessoas sabiam. Hoje será anunciado. Estávamos esperando apenas o momento certo. — Dihya de certo modo, não ficou surpresa que algum rumor havia se espalhado. Muito menos surpresa que um novo projeto tenha incomodado outras pessoas. As Cidades-Satélites eram uma mina de ouro e qualquer novidade poderia ser uma ameaça.

— Então você tem muito o que me agradecer. — Disse Paulo, jocosamente.

— Como assim?

— Falei com a F.A.U que um grupo radical anti-exploraçao espacial ameaçou todos os embaixadores. Não é totalmente uma mentira, mas isso forçou eles pensarem nossos transportes de modo mais… Cauteloso. Fiz isso porque pensei que você, minha amiga, poderia estar em perigo.

— Sim, de fato fui atacada por piratas. Pensando bem, achei a situação estranha. Talvez nem fossem piratas. — Dihya poderia ter ficado brava, mas estava apenas triste.

Um sinal tocou. O congresso finalmente se iniciaria. Lentamente os participantes começaram a se sentar, menos o embaixador de Israel. Ele seria o primeiro a falar.

Israel estava adiantado no cronograma. Foi um dos poucos países que decidiu fazer uma Cidade-Satélite por si mesmo, sem participar de uma Liga. Conseguiram finalmente terminar toda a estrutura básica, e as primeiras famílias colonas voluntárias chegariam ainda essa semana.

Após as congratulações e onda de esperança, o Congresso seguiu para o caminho previsto. A embaixadora pouco conseguia se concentrar, sendo chamada à superfície de sua atenção apelas pelos comentários irônicos de Paulo.

Ela percebia apenas trechos de discussões sobre a falta de materiais, o aumento dos distúrbios populares, intrigas milenares e sem sentido entre Ligas, ou mesmo dentro de próprias Ligas. Ouviu sobre uma imprevista tempestade de areia surgiu durante a decolagem de um grande cargueiro, que caiu sobre toda uma doca na Austrália. Uma grande perda material e de vidas para a F.A.U.

Sua atenção só retornou de fato quando seu nome foi chamado. Era o convite para ir palestrar.

Acenou para Paulo, e olhou ao redor. Não era a mesma mulher, que horas antes estava apavorada em uma nave. Ela era a pilota agora, e aquele era o seu espaço.

Caminhou calmamente até o centro, onde havia um pequeno palanque.  

— Boa tarde senhores e senhoras. Que a paz esteja sobre vocês. Estamos há anos fazendo esses Congressos, reuniões, encontros e acordos. Fico feliz que o projeto Cidades-Satélites está realmente caminhando para o sucesso temporário.

Vozes, múrmuros, exclamações e reclamações. A palavra temporária era algo que incomodava todos. Um tabu entre todos os presentes.  

— Sim, temporário. Hoje estamos desmontando cidades inteiras em busca de matéria-prima. No futuro, poderemos tirar cada pedra do planeta e remontá-lo. Mas haverá um limite. Um limite de espaço menor do que nossa população.

— Senhora embaixadora, com mil perdões, mas isso foi tema para discussão durante décadas. Em décadas nenhum outro modelo foi concebido. Será que é proveitoso mesmo trazer essa questão novamente à pauta, com tantas outras mais urgentes? — Quem dizia era o embaixador de Israel.

— Obrigado senhor Embaixador. Assim como as demais apresentações, haverá espaço para debate posterior. Assim, peço que não me interrompa, do mesmo modo que o senhor não foi interrompido. Você verá que se precipitou, — “Como era a manobra que Dandara fez? Meia-lua. Isso, você está prestes a receber uma meia-lua, meu caro” — pois aqui vai a resposta.

Dihya abriu a pasta e dela retirou uma pequena esfera. Um projetor holográfico, que, assim que ligado, mostrou uma grande espaçonave em três dimensões. Pela escala, ela seria enorme, maior do três ou quatro Cidades-Satélites. Vozes, múrmuros, exclamações e reclamações.

—   Todos sabemos de planetas que possam ser habitados, desde que a humanidade lançou as Naves Exploradoras. Todos sabemos que a migração sempre foi uma constante na nossa espécie. Algumas voluntárias, outras forçadas por desastres, invasões, guerras ou escravidão. Senhores, neste quesito, como embaixadora da liga Afro-Árabe, devo dizer que temos muita experiência neste tópico.

Enquanto muitos mostravam claro espanto, Dihya viu Paulo enviar um sinal de positivo.

—  Vocês podem, claro, voltar para trás.  Ir contra a corrente da história que marca nossa espécie, e voltar para essas cavernas elitistas chamadas de Cidades-Satélites. Ou podem ir além. Além das estrelas. O grande empecilho para tanto era uma lacuna no modelo de Terraformação completa. Se não, a colônia seria apenas uma Cidade-Satélite, como qualquer outra, pousada em um planeta estranho e hostil. Pois bem, uma equipe chefiada pelo Engenheiro-Chefe de nossa Liga, apresenta uma solução mais ampla. Estamos apresentados um novo projeto. Um projeto de buscarmos novos planetas e transformá-los a serem habitáveis. E assim, sermos livres para migrar pelo espaço. 

Finalmente a plateia se silenciou.  

— Agora que tenho a atenção completa de todos, posso mostrar os detalhes.  Por favor, peguem os óculos de realidade virtual, eles estarão sincronizados com essa projeção. Ótimo, agora procurem pelo arquivo “Projeto Cartago”, e se preparem para saberem como atravessar um deserto.

Os comentários estão encerrados.

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: