Nota – A intolerância de nossos tempos e um presidente distópico.

É muito difícil existir um escritor ou escritora de fantasia ou ficção científica que não se alinhe ao espectro de esquerda.

Pegue os prêmios Hugo (alô, ideia de mestrado para você aqui) e veja o tipo de escritores dos primórdios da FC, lá na década de 50: brancos, velhos, cientistas. Mesmo esses caras (que eu serei daqui a pouco – só me falta a velhice) eram de esquerda. Tudo bem, alguns eram bem patriotas – mas, porque acreditavam no discurso da demoracria. Era uma época de Nós contra Eles. “Democracia Americana” versus “Ditadura Comunista”. Até Ursula caiu nessa temática de seu tempo, apesar de acreditar na terceira via, a Anarquia. (uma terceira via mais interessante que as atuais terceiras vias).

Mas, olha só o rei da época. Isaav Asimov, que mesmo sofrendo da misogenia fruto de seu tempo (não superada ainda hoje), odiava o militarismo. Odiava a influência religiosa no Estado. Odiavia o homem médio, pai de família, com discurso pronto na mesa de jantar (sim, já existia isso na época. Talvez desde que tenham inventado armas e caminhotes brancas com badeiras nacionalistas. Eram chamados de “trogloditas”).

E olha os Hugo Award de hoje: latinos, negras, asiáticos, todos denunciando colonização, a neocolonização, preconceito, pautas ambientais e outros fantasmas de nosso tempo.

Ou seja, qualquer época, qualquer tipo de escritor(a), sempre haverá um pouco de esquerda na produção especulativa.

Ditoi isso, informo: Nunca nesse blog eu fiz qualquer tipo de declaração política. Mas, nos meus textos, é quase automático se alinhar a um discurso de rebeldia. Como Geógrafo, eu sinto que nosso tempo na Terra está acabando. Simples assim.

Morador do Cerrado, servidor da Defesa Civil, não vejo um bom futuro. Na Geormorfologia (o estudo do relevo) um dos paradigmas (pensamento consolidado) é que todo geossistema possui um ponto de ruptura.

Geossitema é uma palavra bonita para paisagem, que é um conceito lindo para as coisas que existem, são materializadas no espaço geográfico, e que podem ser percebidas por nossos sentidos. Pode ser uma rua, um bairro, uma cidade. Pode ser uma vertente, um morro, uma cadeia de motanhas. Uma pessoa, uma família, uma civilização. A escala não importa. É fractal.

E ponto de ruptura é um ponto no qual algo não pode voltar a ser o que era. Lembro das noites na USP, sala 9, quando o prof. cutucava uma cadeira, a inclinado só com dois dos quatros pés.

Um pouco de força, ela inclinava bem, mas voltava. Um pouco mais de força, ela – opa! – voltava. Mais um pouco de força, e pronto. Gravidade venceu. A cadeira (nosso geossistema) passou de seu ponto de ruptura, e PÁ, caiu. (Taca-lhe entropia).

E, meus caros(as), se já não passamos, estamos muito próximos de um ponto de ruptura climático no nosso país. A floresta estacional semidecidual – vulgo floresta Amazônica – , nossa grande bombinha de umidade para um país asmático, está sendo assassinada. Num ponto que talvez, nem cessando todo desmatamento, ela possa voltar. Pessimismo ou ciência?

Um colapso ambiental é seguido de um colapso social. Aliás, tudo isso é muito tautológico. Um colapso anda com o outro, se retroalimentando e cuspindo o Neoliberalismo.

Então, sim. Sou pessismista. Moro no cerrado e passei esse ano por um dos maiores períodos de seca. Os eventos de chuva e seca não estão só desregulados, mas estão extremos. Chove menos dias, e quando chove, é acumulado. Menos água nos aquíferos, mais água alagando as cidades, afogando safras e desalojando pessoas pobres.

Talvez, ser pessimista é uma característica geral da literatura, sobretudo a especulativa. É um laboratório em que o autor pode pensar em vários SEs. “E se o mundo seguir esse caminho, e se optar por esse outro? E se isso acontecer? E se isso não acontecer?”

Pode ser vários SEs. Se passarmos por uma invasão alienígena hostil. E se for contato alienígena filantrôpico? E se surgir Zumbis. E se colonizar a lua Europa. Descobrir como fazer se faz buraco de minhoca. E se não ter mais floresta amazônica?

Quase todos SEs evidênciam que a humanidade é sempre o seu próprio lobo. Que no fim, a força irá vencer a criatividade. A mentira irá vencer a inteligência. A boiada irá pisotear.

Faça esse teste mental e deprima-se.

Há, claro, a ficção otimista, como é Star Trek ou a incrível escritora Becky Chambers. Mas, fico com aquela literatura totalmente distopica, ao ponto do desespero, como da escritora Octávia Butler.

Becky é uma escritora branca, universitária, filha de dois pais doutores (aquele que tem doutorado, ou seja, doutor de verdade) que trabalharam na NASA, e é nítido que seu universo familiar é estável. Só com um universo familiar bonito assim ela poderia olhar para o Universo (mal, precisei desse trocadilho). E garanto que ela usou um telescópio da NASA.

Não há nada de errado nisso, no perfil dela. É apenas uma contestação. Ainda bem que existem pessoas otimistas! Seus livros são de longe meus favoritos até hoje em FC.

Porém, do outro lado, temos Octavia, uma mulher negra, acima do peso, pobre, trabalhou no chão da fábrica, e que nunca conheceu seu próprio pai. Seus textos evidenciam o pior da humanidade, nunca há final feliz.

Eu, talvez devesse me colocar ao lado de Becky. Um cara branco, com um emprego estável, com bons pais, com um carro na garagem… Só que não consigo ser otimista.

Para mim, a ficção especulativa deveria se chamar ficção profética.

Todos os sinais de todas distopias já imaginadas, por mais batidas e infantis que elas sejam nas Young Fiction, ou mais maduras como as da própria Atwood e Orwell, TODAS ELAS, nos indicam: estamos caminhando para o fim, como nação (para quem gosta desse termo) e como civilização.

No fim ambiental e no fim social em uma sociedade tomada por um pensamento miliciano, de falso moralismo.

Em nenhuma literatura, nenhuma, seria justificável um presidente como o nosso. Nenhum escritor(a) conseguiria pensar em alguém tão caricato no papel de vilão.

Mas, há um dever sim da esperança. Faz parte da esperança acreditar que os bons “SEs” podem ocorrer, e assim talvez o mundo igualitário das Utopias possa frutificar, um pouquinho – quem sabe?. É necessária uma união de TODES para que nós tenhamos Esperança. Sandman já deu a deixa.

Então, posso não ser otimista, mas serei esperançoso.

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